A IA não vai roubar o teu trabalho. Mas pode tornar-te irrelevante.
Já todos percebemos que a inteligência artificial veio para ficar. E, nesta altura, continuar a discutir se devemos ou não usá-la parece-me uma perda de tempo.
A questão é outra: o que é que fazemos quando o cliente já consegue fazer sozinho uma boa parte daquilo que antes nos pedia?
Porque agora o cliente chega à reunião com um logótipo feito no Canva, um site montado com IA e uma estratégia escrita pelo ChatGPT. Às vezes até vem com tudo isto junto. Um verdadeiro pack completo.
E nós? Vamos dizer-lhe que está tudo mal e que tem de começar do zero?
Talvez seja melhor perceber primeiro o que é que ele realmente precisa.
O cliente já não precisa de ti para começar
E isso não tem de ser uma má notícia.
Há ferramentas que permitem criar imagens, apresentações, textos e websites em minutos. Coisas que antes exigiam várias pessoas e muitas horas de trabalho.
Eu própria uso IA no meu dia a dia. Para organizar ideias, testar abordagens, pesquisar, acelerar tarefas. Seria um bocadinho absurdo falar sobre o futuro do trabalho criativo e fingir que continuo a fazer tudo como fazia há dez anos.
Mas há uma diferença entre conseguir produzir alguma coisa e perceber se aquilo faz sentido.
Um logótipo pode estar bonito e não dizer nada sobre a marca. Um website pode estar impecável e não ajudar a vender. Uma estratégia de comunicação pode ter vinte páginas e continuar sem uma única ideia útil.
E sim, já vi documentos muito bem apresentados que, depois de lidos, nos deixam exatamente na mesma.
Se só vendemos execução, temos um problema
Durante anos vendemos logótipos, posts, páginas, apresentações e horas de trabalho. Eu também fiz propostas assim. Era a forma habitual de apresentar os serviços.
Só que, quando uma ferramenta faz parte dessas tarefas em cinco minutos, é normal que o cliente pergunte porque é que aquilo custa tanto.
Podemos responder que temos experiência, formação, anos de trabalho e uma série de programas instalados. Tudo verdade. Mas isso, por si só, não explica o resultado que conseguimos entregar.
O cliente não nos contrata para ficarmos oito horas agarrados ao computador. Contrata-nos porque tem um problema para resolver. Ou, pelo menos, devia ser assim.
O que a IA não resolve sozinha
O cliente pode pedir um site. Mas será que precisa mesmo de um site novo? Pode pedir mais publicações nas redes sociais. Mas será que o problema é publicar pouco? Pode pedir um rebranding quando, na verdade, ninguém percebe o que a empresa vende.
É aqui que entra o nosso trabalho: fazer perguntas, perceber o negócio, identificar o que não está a funcionar e recomendar uma solução. Mesmo quando essa solução não é aquilo que o cliente tinha em mente.
A IA ajuda muito. Mas também consegue dar uma resposta muito convincente a uma pergunta mal feita. E isso pode ser perigoso quando ninguém pára para pensar se a resposta faz sentido.
Não estou a dizer que todos os designers têm de passar a consultores. Há excelentes profissionais cuja força está na execução, na técnica e no olhar visual. O ponto é saber explicar o que fazemos melhor, em vez de competir apenas pela rapidez.
E talvez tenhamos de mudar as nossas propostas
Se uma proposta é uma lista de tarefas com preços ao lado, estamos a facilitar a comparação pelo preço. Dez posts por X. Um logótipo por Y. Cinco páginas por Z.
Mas onde está o problema que vamos resolver? Onde está a estratégia? Onde explicamos porque é que aquelas entregas são as certas?
Não é preciso transformar cada orçamento numa tese de doutoramento. Basta deixar claro que houve alguém a pensar antes de começar a executar.
O que muda a partir de agora?
Na minha opinião, temos três coisas para fazer: aprender a usar estas ferramentas, deixar de medir o nosso valor apenas pelas horas de execução e mostrar melhor o raciocínio que está por trás das decisões.
A IA pode ajudar-nos a trabalhar mais depressa. Ótimo. Mas trabalhar mais depressa na direção errada continua a ser trabalhar na direção errada. Só que agora com uma eficiência impressionante.
Portanto, não, não acho que a IA vá acabar com os designers. Acho que vai obrigar muitos de nós a repensar o que vendemos e como o explicamos.
E deixo uma pergunta: se amanhã o teu cliente conseguir fazer sozinho metade das tarefas que te costuma pedir, porque é que vai continuar a escolher-te?